RACISMO EM TEMPO DE PANDEMIA – Como o racismo influenciou no enfrentamento à pandemia? Por Dr. Marcio R. Renzo


 A pandemia da COVID-19 trouxe grandes mudanças em nosso modo de viver, de se relacionar, de ver o mundo. Mas será que em relação às diferenças de raças também houve mudanças? 

Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) em um estudo conduzido no 1º e 2º trimestre de 2020, apontou que cerca de 6,3 milhões de pessoas perderam seus empregos. Outro ponto importante apresentado foram as taxas de demissão e subutilização, que também mostram diferenciais na questão racial. A taxa de desocupação de homens pretos subiu de 11,8% para 14% e das mulheres pretas de 17,3% para 18,2%, no segundo trimestre de 2020.

A subutilização, que é quando a pessoa trabalha menos de 40 horas semanais e que gostariam de trabalhar ainda mais, se tivessem a oportunidade, também apresentara diferenciais em relação aos brancos. Cerca de 18% das mulheres e 14% dos homens pretos se declararam nestas condições. Ao passo que para os não pretos foram de 11% e 9,55%, respectivamente. Esse painel já existia antes da pandemia, porém teve sua situação ainda mais agravada. 

Essa disparidade não é uma surpresa, levando-se em consideração todos os anos de abandono e marginalização da população preta, porém os números assustam, pois a essa população menos favorecida é a que divide ônibus lotados, serviços de saúde ineficientes, moradias precárias, entre outros problemas. 

Se olharmos estruturalmente, há outras questões envolvidas neste panorama e não somente em relação à parte econômica. Na saúde também podemos observar esta diferença. Para a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que o racismo também é um dos fatores sociais determinantes do processo de adoecimento e morte.

Para analisarmos o impacto da COVID-19 na população preta, relacionados à saúde, é importante observarmos três pontos: a população idosa, as comunidades quilombolas, pessoas privadas de liberdade e as pessoas em situação de rua (PSR). Em estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP), foram apontados diferenciais no enfrentamento da pandemia nesses 4 pilares. 

Foi observado em relação à população idosa, que o modo de como esta faixa etária vivia em suas residências, a quantidade de pessoas que coabitavam com elas, a falta de recursos e informação sobre a doença e sua gravidade e a privação de liberdade imposta pelos lockdowns contribuíram muito para que os casos da doença fossem mais numerosos e graves para os pretos, em comparação aos brancos na mesma faixa etária, confirmando o racismo e etarismo presente na sociedade brasileira.

Outro ponto importante para a comunidade preta é a situação dos Quilombos, que historicamente já sofrem com problemas de falta de atenção dos governos, ataques de grileiros, entre outros. São cerca de seis mil comunidades, acumulando aproximadamente 16 milhões de pessoas. A falta de atendimento primário de saúde, falta de informações a respeito da doença e seus cuidados, saneamento básico, insegurança alimentar faz com que este grupo seja extremamente vulnerável a situação imposta pela pandemia. Outra observação importante é que a prevalência de doenças como a hipertensão arterial e diabetes ser maior na população preta, e essas doenças serem comorbidades que geralmente leva pacientes da COVID-19 ao óbito.

Como observamos no início deste texto, a situação econômica fez com que muitas pessoas perdessem seus empregos, desta forma aumentando muito o terceiro fator, que são as pessoas em situação de rua (PSR).

Apesar de haver poucos controles e informações precisas sobre este tipo de população, principalmente nas grandes cidades, que afetam a elaboração de políticas públicas para este segmento. Estima-se que hoje no Brasil haja cerca de 102 mil pessoas nestas condições, cerca de 70% dessas pessoas são pretas e nas atuais formas de controle fazem com que essas pessoas sejam invisíveis ao sistema, pois não são identificados durante a triagem. Essas populações além de terem dificuldades ao acesso à saúde, também são portadoras de um grande número de comorbidades, além de serem em grande parte usuários de drogas lícitas e ilícitas. 

Por fim, as pessoas privadas de liberdade que no Brasil chega a cerca de 750 mil pessoas, sendo a maioria formada por pretos de baixa renda e escolaridade. Associado a esse problema temos a superlotação e o auto índice de doenças infectocontagiosas que são preocupantes associadas à COVID-19, podendo levar ao óbito.

Portanto, se quisermos amenizar esses resultados observados, devemos urgentemente rever nossas políticas públicas de saúde, renda, habitação, etc, a fim de que essa tragédia que foi a pandemia da COVID-19 seja um aprendizado para que possamos evoluir como sociedade e Nação.

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