QUALQUER COISA QUE SIGNIFIQUE



QUALQUER COISA QUE SIGNIFIQUE

 

Foto do arquivo pessoal

Ontem (29/12), um conhecido meu publicou em suas redes sociais fotografias suas junto de um grande amigo que havia falecido naquela manhã. O jovem de trinta e quatro anos possuía um câncer no estômago e, apesar das indicações médicas para repouso e resignação, continuou a sua vida normalmente, inclusive ingerindo bebida alcoólica e fumando. 


Aparentemente, essa pessoa era espetacular. Sempre sorridente e festeiro, unia os amigos e comemorava as alegrias da vida. Além das suas atividades laborais, era ele quem cuidava de três idosas com quem convivia. O infarto repentino certamente deixou graves sequelas naquela família. 


Perguntei ao meu conhecido se o velório já transcorria. Para minha surpresa, fui informado de que o corpo ainda estava sendo preparado e, enquanto isso, todos os amigos do jovem estavam numa mesa de bar, sorridentes, lembrando de momentos com o falecido. 


Talvez eu seja realmente chato, um chato de galocha, chato de carteirinha. O sentido de torpeza para um estudioso do Direito é sempre repleto de correntes doutrinárias, mas eu “morrerei” acreditando que, na cultura em que vivo, não se saúda um defunto na mesa de um bar. Acreditem: torpeza e futilidade são conceitos tênues, difíceis de se separar.


Diego Moraes, um dos maiores nomes da poesia contemporânea, disse certa vez que “quando um amigo morre, um bar fecha dentro da gente”. Quando um amigo morre, não há espaço para bebedeiras, nem para comemorações, quiçá para frequentar o recinto que conduziu ligeiramente o indivíduo à  Campa do Último Repouso. 


Quando um amigo morre, pode até surgir um tímido sorriso no canto da boca quando se lembra das travessuras e dos momentos afetuosos, mas a morte é sim um espaço de saudade, de dor, de contemplação e, sobretudo, de ritos e estados meditativos. Não que seja intolerável ou impossível trazer novo sentido para a morte, mas é que de tanto transgredirmos a nossa consciência, tudo tornou-se frio e banal.


A verdade é que nos perdemos na liquidez de tempos modernos em que pouca coisa (talvez nada) surge para durar. O perfume da memória vai se espargindo de forma tão ampla que ninguém sente mais a fragrância se desbotando como hálito quente do beijo da existência. 


O velho Brás Cubas estava certo. Ainda bem que Machado de Assis nos ensinou: “esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar.”


Italo Samuel Wyatt
Instagram: @italoswyatt

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